A geografia da criminalidade

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Tese de doutorado do economista Daniel Ricardo de Castro Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que pesquisou sobre as causas e as consequências do crime no Brasil e foi vencedora da última edição do Prêmio BNDES de Economia conclui que, com a redistribuição da renda nacional e da atividade econômica, ocorrida no período de 2000 a 2010, mudou também a geografia da criminalidade no País, levando a violência urbana a migrar do Sudeste para as Regiões Norte e Nordeste. O trabalho foi elaborado com base na análise das estatísticas do Ministério da Saúde.
Segundo o estudo, Estados que historicamente lideravam as estatísticas de homicídios, como São Paulo e Rio de Janeiro, registraram na década de 2000 queda de 66,6% e de 35,4% no número de assassinatos por 100 mil habitantes, respectivamente. Por  outro lado, no mesmo período, o índice de homicídios cresceu no Norte e no Nordeste:
·        Estado do Pará registrou uma elevação de 258,4%,
·        Estado da Bahia, cresceu 339,5%;
·        Estado do Maranhão, o aumento foi de 373%.
Além da migração da violência de Estados mais ricos para áreas mais pobres dos Estados menos desenvolvidos, o estudo aponta a tendência de interiorização da violência, com quedas em mortes nas capitais e elevação em municípios menores. O ranking das cidades com maior número de assassinatos é liderado por Simões Filho, uma cidade de 130 mil habitantes, vizinha a Salvador, e Ananindeua, situada na região metropolitana de Belém.
Ìndice de homicídios nos municípios pequenos, médios e grandes:
·        taxas de homicídios nos municípios considerados pequenos pelo Ipea – com menos de 100 mil habitantes – tiveram um crescimento médio de 52,2%, entre 2000 e 2010.
·        Já as cidades consideradas grandes – com mais de 500 mil habitantes – registraram uma queda de 26,9% no mesmo período.
·        Nas cidades de porte médio – com população entre 100 mil e 500 mil habitantes – a taxa de homicídios aumentou 7,6%.

As 20 cidades com maior índice de mortes violentas:
·        10 são pequenas,
·        9 são de porte médio e
·        apenas 1 – Maceió, na sexta posição – é considerada grande.

As mudanças na geografia da criminalidade, ocorridas no decorrer da década de 2000, foram provocadas por diversos fatores – alguns de alcance nacional e outros com especificidade regional.
Fatores de alcance global:
·        o impacto do I Plano Nacional de Segurança, que aumentou o repasse de verbas da União para a expansão do sistema prisional federal e estadual
·        o Estatuto do Desarmamento, que entrou em vigor em 2003.
·        as mudanças ocorridas no mercado de drogas, que acompanhou a expansão econômica das cidades situadas fora dos eixos metropolitanos. “Essas localidades passaram a se tornar mais atrativas para o tráfico porque, com mais renda, o consumo de drogas tende a aumentar. Esse mercado ilegal é acompanhado da violência. O crescimento fica comprovado com o aumento no número de mortes por overdose em oito vezes no País, no período de 2000 a 2010″, afirma Daniel Cerqueira.

Fatores de caráter local e regional
·        a associação entre crescimento econômico e atividades criminosas em áreas de fronteira, desmatamento e extração ilegal de madeira.
·        a formulação de novos padrões de política pública em matéria de segurança e assistência social, como a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas dominadas pelo narcotráfico na cidade do Rio de Janeiro, a partir de 2008, e a estratégia adotada pelo Estado de São Paulo, que intensificou operações e investigações com base na expansão dos serviços de inteligência e na utilização de estatísticas para planejar as ações preventivas e repressivas das Polícias Civil e Militar.
O estudo do Ipea fornece informações valiosas, mostrando como a combinação entre mais eficiência dos órgãos policiais com melhoria de serviços públicos pode ser decisiva para a redução da violência.
Fonte: O Estado de S. Paulo


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